domingo, abril 19, 2009

Jornalistas X “Jornalistas”

 

Deverá ser votada, ainda esse mês, a revogação do Decreto-Lei 972/69, que determina a obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo. Essa votação tem causado muita discussão no meio jornalístico, já que, dependendo da decisão final, poderá gerar uma mudança na imprensa brasileira. Órgãos como a Fenaj - Federação Nacional dos Jornalistas - e o FNPJ - Fórum Nacional de Professores de Jornalismo - lutam para que a obrigatoriedade seja mantida.

Para muitos, o decreto vai de encontro à Declaração Universal dos Direitos Humanos, que, dentre outras coisas, afirma: "Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras." Ou seja, ao exigir o diploma, o país estaria ferindo um direito inalienável do ser humano. Por outro lado, é preciso analisar como essa opinião é expressa e o impacto que ela pode causar em uma sociedade.

O bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo aprende, dentre outras coisas, a teoria e a ética ao repassar uma informação, pois sua função é facilitar a divulgação da notícia de uma forma objetiva, o mais imparcial possível, já que ele não deve formar opinião e sim auxiliar a população a construir a sua.

Um exemplo de como a diplomação pode ser importante, é a mudança ocorrida na imprensa brasileira dos últimos cinquenta anos. Nas décadas de 20,30 e 40, as pessoas se viram bombardeadas por jornais com opiniões totalmente partidárias. Logo de cara encontramos dois erros; mostrar a opinião e tomar parte de alguma ideologia ou pessoa. Um caso a ser citado foi o suicídio de Getúlio Vargas. Na época do Estado Novo governo e oposição usavam a imprensa como um meio de expressar suas opiniões e de atacar um ao outro. O jornal Última Hora foi criado pelo governo para apoiar a liderança de Getúlio Vargas, já que grande parte da imprensa exercia uma oposição explícita ao governo. Depois do suicídio do então presidente do país, a população invadiu a sede de alguns jornais oposicionistas e depedraram, acusando-os de que a pressão que exerciam sobre o governo ter sido um dos motivos do suicídio de Vargas. A partir desse momento e com a formação da primeira turma na Cásper Líbero (primeira turma de jornalismo do Brasil), a imprensa começou a mudar, sendo mais objetiva e não-partidária.

Depois de toda essa história está o ponto aonde quero chegar: se antes, sem a formação profissional, os jornalistas "causaram" tanto impacto de uma forma não-positiva ao país, o que aconteceria se, novamente, leigos, que não tiveram nenhuma aula de técnicas, moral e conceitos, voltassem a escrever livremente na imprensa? A qualidade da informação repassada ao público melhorou consideravelmente nesses anos e também melhorou a situação dos jornalistas, que passaram a ter uma profissão com exigência universitária, aumentando o seu salário (que em muitos lugares ainda é baixo), além do nível intelectual dos mesmos ter aumentado, passando para o público um maior respeito e dignidade à profissão.

Quem defende a anulação da exigência do diploma sustenta que a Lei foi promulgada na época da Ditadura Militar, quando o governo queria controlar a imprensa, proibindo o acesso de revolucionários (que, em sua grande maioria, não tinha graduação), aos meios de comunicação. Eles também argumentam, como já foi citado, usando os Direitos Humanos, afirmando que a exigência fere a Convenção Americana de Direitos Humanos, da qual o Brasil é signatário. Além disso, um outro ponto forte é que o mercado continuaria selecionando os profissionais com diploma, já que ele [o diploma] demonstra uma maior responsabilidade e efetivo conhecimento da área. Em contrapartida, os defensores da exigência dizem que muitos meios de comunicação poderiam passar a contratar pessoas sem o diploma, apenas por terem “visões” que favoreceriam a empresa, ou seja, voltaríamos a ter uma informação manipuladora de opinião, com uma defesa ou crítica explícita a determinada coisa. Seria esse o futuro que queremos para a nossa imprensa? É fato que muitos jornais, por exemplo, deixam implícito o “lado” que defendem, mas isso não compromete totalmente a informação que chega ao cidadão, ela não é completamente distorcida e vista por apenas uma ótica. Os fatos são expressos e a pessoa pode refletir e concluir se concorda ou não.

Enfim (isso aqui está ficando grande), é fato que a imprensa brasileira ainda tem que melhorar, mas eu não sei se o fim da obrigatoriedade do diploma seria um bom começo nessa mudança. O que aconteceria com os milhares de jornalistas formados? E com os que estão para se formar? Não podemos nos esquecer de que a liberdade de expressão e de se manifestar não deve ser confundida com uma profissão. Qualquer leitor pode mandar o seu texto para qualquer jornal, se for pertinente, ele publicará. Já é difícil para um profissional da Comunicação conseguir emprego, imagina se o seu diploma não servir de mais nada? Se essa revogação for aprovada, eu vou acabar é passando fome quando me formar.

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A sua opinião é bem-vinda.

3 comentários:

Eduardo disse...

Eu concordo que jornalistas precisam de formação... Imagina se a moda pega e começam a aparecer advogados, médicos ou engenheiros sem formação(não que não existam...)... E a queda de produtividade e qualidade provavelmente seria enorme se passassem a contratar pessoas não-formadas

Bárbara disse...

Pois é, esse é um dos grandes problemas. Se exigem diploma pra exercer determinada profissão é porque ela necessita de qualidade. Jornalismo é um emprego sério e tão importante quanto Engenharia.

Jasque disse...

Oh, também faço comunicação social,so q audiovisual, mas sei a opinião das pessoas do curso e é quase unânime contra.

Na minha opinião, essa medida é totalmente desnecessária. Já vejo por aí jornalistas formados que são péssimos, imagina sem diploma?

Fora o desestimulo ao curso. Jornalismo já não é uma área muito fácil de conseguir estabilidade, quem vai querer fazer jornalismo se n precisar diploma? A pessoa vai fazer qualquer coisa q da mais futuro e brincar de jornalista.

E tb, isso pode não estar sendo observado no Brasil ainda, mas o jornal impresso é algo que está caindo(principalmente com a internet). É o pior momento para pensar em algo assim.