domingo, fevereiro 08, 2009

O problema das comédias e a avaliação de filmes

O cinema transpõe uma gama tão elevada e indiscriminada de emoções diversas ao espectador que sua avaliação muitas vezes é tão parcial quanto possível.

As comédias representam bem esse dilema.

Apesar de algumas obras contidas nesse gênero serem majestosas, e alguns atores especialistas capazes de nós arrancar as mais sinceras gargalhadas, as grandes premiações pouco as prestigiam.

Por quê?

 

 Comédias e Dramas

Já é de conhecimento de todos aqui, nos grandes anfiteatros da grécia antiga os atores encenavam comédias e tragédias com suas máscaras teatrais.

Desde esse tempo é notória a distinção entre esses dois estilos, evidentemente toda tragédia – ou dramas, na atualidade – possui cenas de comédia para distoar um pouco da sequência e abrandar a tensão dos espectadores; assim como as comédias possuem seu clímax, antí-climax, e demais elementos dramáticos inerentes ao roteiro.

Porém, esses estilos se diferenciam basicamente por objetivos: As tragédias, ou dramas, transmitem algo emocional, profundo, com uma densidade muito mais complexa e emaranhada; geralmente contam histórias plausíveis, ou, se não, com algum elemento que remeta ao conjunto de sentimentos humanos. Já a comédia nos faz rir! É tão mais simples e objetivo, ela não busca uma densidade no roteiro que nos toque; mas busca uma simplicidade bizarra que nos toque!

Esse é um elemento interessante da comédia: a bizarriè. Mesmo quando plausível ela nos mostra coisas bizarras, incomuns, ou que não notamos – aqui se destaca a stand-up comedy – e, as vezes, acabamos querendo cobrar desse estilo de filme uma densidade cinematográfica, e não uma boa gargalhada em DVD.

Comédias e Comédias

Evidentemente não daria para apenas esteriopatizar a comédia segundo esses preceitos básicos e considerar que foram abrangidas todas suas vertentes. A comédia, em si, é muito rica.

Ela pode variar do sitcom de Ben Stiler, Steve Carrell e Matthew Broderick; passando pelo distinto humor britânico de Monty Phyton e Mr. Bean; até o humor bizarriè de Leslie Nielsen e as caras e bocas de Jim Carrey. E qualquer dia falarei sobre cada um deles mais detidamente.

Esse ponto teve um caráter mais esclarecedor, como já dito, é evidente que a comédia possui inúmeras ramificaçãos; mas seu âmago ainda permanece intacto: Divertir. E isso foge da pragmática proposta cinematográfica dos tiozões da academia.

De fato, sempre é mais cômodo assistir uma comédia em DVD ou até mesmo na TV com um grupo de amigos do que em uma sala de cinema, com a mão no queixo e a testa franzida.

E não é só a academia que segue esse lógica; nos últimos dias estreou nos cinemas Sim, Senhor, comédia de Jim Carrey que retoma seu velho estilo de caras, bocas e situações bizarras. E é notório o receio de muitos para com a película, principalmente em relação ao roteiro e seus possíveis buracos.

De fato o roteiro é cheio de buracos e descontinuidades, mas eu assisti e ri como não ria há um bom tempo.

O que se pode falar desse filme? Ele cumpriu suas expectativas! O que se esperar de uma comédia se não ótimas risadas? Onde acaba o limite da consideração pelo roteiro e começa a consecução dos objetivos? Quem disse que o roteiro é mais importante do que as risadas? Porque um filme não pode ser avaliado apenas pelo humor que ele transmite, caso seja uma comédia?

Quais os critérios para se avaliar um filme levando em consideração seus objetivos?

Comédias e o Oscar

Uma rápida pesquisa na Wikipédia confirma o que creio eu nem precisaria de confirmação: Nos últimos 15 anos, apenas duas comédias ganharam o Oscar de melhor filme, Shakespeare Apaixonado – uma comédia romântica que muitos ainda consideram drama – e Chicago – um musical satírico. E, se você se esforçar um pouquinho, pode considerar também Forrest Gump como uma comédia. Em quinze anos. Pode conferir se duvidar! E mais dois ganharam como Melhor Ator, Roberto Benigni em A Vida é Bela – comédia dramática – e Jack Nicholson em Melhor é Impossível – mais uma comédia dramática.

E ainda olhei uns 30 ou 40 anos para ver se encontrava alguma comédia puramente comédia mas acabei desistindo.

E, excluindo-se o multi-funcional Jack Nicholson, nenhum dos grandes nomes da comédia mundial foram brindados com a honraria de uma premiação como melhor ator – nem sequer quando se arriscaram em dramas.

Qual é a verdade? Uma comédia é menos filme que um drama?

Atores e Personagens

A verdade é que tudo passa por uma questão de critérios. É claro que são poucos aqueles que conseguem nos arrancar uma risada, aquela risada sincera e inesperada. Para tal o humano carece de um dom, um real dom de humor; e evidentemente merecia ser premiado.

Só que para fazer humor você nem sempre precisa de personagens. Se Jim Carrey fosse Jim Carrey em todos filmes que ele estreou a piada seria igualmente engraçada. Se ele fosse Xiquita Bacana e tivesse um afro seria a mesma piada, talvez até melhor. Charlie Sheen é Charlie em Two and a Half Man e isso não diminui sua qualidade, ele não necessita de um personagem, ele é o personagem.

Só que o que fica na história são personagens. O que fica na história é um Dom Corleone, é um Charles Foster Kane, um Alexander DeLarge, um, sei lá, Jason Voorhees. São os grandes personagens que se fixam no imaginário dos espectadores, que nos fazem sentir medo e sonhar, nos colocar no lugar deles. Esse é um dos grandes baratos no cinema.

Eu não consegui lembrar de personagens de comédias, talvez um Ace Ventura aqui, um inspetor Clouseau acolá, com alguma boa vontade o Stifler. Nada demais.

Nas comédias os atores são maiores que os personagens, talvez até maiores que as tramas! Eu fui ver Jim Carrey no cinema, não o… o… Não consigo me recordar o seu personagem.

É claro que em muitos dramas você também esquece os personagens. Duas faces da Lei era protagonizado por Al Pacino e Robert DeNiro, não por seus personagens. Mas Al Pacino e Robert DeNiro hoje fazem filmes com seus nomes porque ontem eles eram dois alguéns fazendo Corleones. Vincularam seus nomes a grandes personagens e assim tiveram reconhecimento.

Essa é uma explicação razoável que considero para esse dilema, nos dramas os personagens são maiores; e as grandes premiações brindam grandes personagens. Mas, é o fim? Comédias não têm valor?

Adaptação

É algo demodê e você devem conhecer, mas One Piece é a minha série predileta ever. E muitos relutam em conhecê-la por sua bizarriè; é uma comédia!

Quando você vê um drama, você deve ver um drama, deve pensar, se envolver com a trama, se pôr no lugar e nas situações dos personagens. Viver junto com eles aquelas cerca de duas horas.

Uma comédia é diferente! Você deve ver uma comédia. Deve abrir sua mente, relaxar, se tornar mais acessível para que o ator possa te contagiar com o humor. Você deve assumir uma postura relaxada, condizente com o momento.

As duas coisas são muito diferentes, tanto o é que o Globo de Ouro, segunda maior premiação do cinema mundial, possui uma categoria específica – tanto nas séries quanto nos filmes – para as comédias. Para que elas possam ser avaliadas separadamente. E dentro de suas características. Assim como as animações.

E é o mais justo, eu sou partidário da idéia de se avaliar a qualidade de cada filme de acordo com suas propostas – incluindo, por exemplo, Wall-E na categoria de melhor filme no Oscar 2009 –, seria desonesto apenas uma categoria de Melhor Filme sendo que a absurda maioria são dramas.

A solução? Bem, é os velhos ranzinzas da academia incluírem a categoria de Melhor Comédia/Musical. Não duvido que aconteça, mas também não espero.

Sejamos menos ranzinzas!

That's All, Folks!!!

Discordem!

6 comentários:

Bebs disse...

Nossa, seu texto expressou tudo que eu penso. =)

E também sempre achei que os filmes de comédia são menosprezados e que o Oscar deveria ser como o Globo de Ouro, com a divisão de categorias. Pois é injusto avaliar propostas diferentes (a comédia e o drama) sob os mesmos parâmetros.

Mas, assim como você, não acredito que a Academia fará isso. =/

Eduardo disse...

Cara... Eu já não te falei que House não é comédia? Por que tem uma imagem dele bem na abertura do post? xD

Paco D. Lee disse...

Olha, isso foi coincidência, Eduardo. XD

Eu tava procurando alguma imagem de um velho ranzinza assistindo TV; queria retratar que muita gente é chata com comédias - eu sou uma dessas pessoas. Aí me aparece o House, aí eu dei uma gargalhada e achei perfeito. XDDDD

Bárbara disse...

Concordo com Bebs e você, Lee, deveria sim ter uma divisão de categorias, para poder avaliar cada elemento de uma e da outra. Se existem essas divisões nos filmes (comédia, romance, drama, ação...), deveria também ter um Melhor Filme para cada categoria, afinal, se elas existem é por possuírem elementos diferentes, julgar igualmente é no mínimo injusto.

E, bem, confesso que achei super estranho quando assisti uma comédia no cinema pela primeira vez. Todo mundo rindo praticamente o filme todo, soltando gargalhadas, algumas piadas que somente alguns achavam graça daí soltavam gargalhadas e outros sérios. Foi estranho. XD

Bruno disse...

Se existisse essa categoria no Oscar e um filme que era para ser sério como Ricky Oh ganhasse... Ia valer como uma Framboesa de Ouro... =D

Jaderson disse...

concordo, injustiça e deveria mudar, mas ahh, é só o oscar