quinta-feira, março 12, 2009

Análise de Gênero #02 - Terror Asiático

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Os anos 90 foram uma década em que o terror hollywoodiano sofria com a falta de criatividade dos produtores. Esse gênero se desgastava com a batida fórmula de assassinato em série de adolescentes estúpidos e promíscuos – um modelo que surgiu muito bem com Sexta-Feira 13, mas acabou banalizado por suas inúmeras sequências e filmes parecidos. Podemos tomar como exemplo Eu sei o que vocês fizeram no Verão passado, o remake de O Massacre da Serra Elétrica, Lenda Urbana e, claro, a série que fez esse estilo explodir e entrar em absoluta decadência: Pânico.

Pânico também foi responsável por um triste gênero de suspense/terror dos anos 90: o dos psicopatas idiotas. Aqueles que no início do filme armam tramas impressionantes, fazem jogos psicológicos que te surpreendem e, do nada, se transformam em completos idiotas que só sabem correr atrás das suas vítimas como loucos e não conseguem as capturar. Mesmo quando são adolescentes fúteis, frágeis e sem experiência nenhuma.

O cinema pedia algo inovador. Algo realmente aterrorizante!

Mas essa ainda era uma época infrutífera para o cinema do terror. Víamos muitos assassinatos, gritos, rostinhos bonitos mas nada que se comparasse a um Hitchcock, a um Romero ou um Sam Rider que seja. E nesse contexto, surge um viral avassalador o suficiente para arrecadar quase 300 Milhões – o que já seria algo fantástico para um filme de terror. Só que o mais surpreendente é que é uma adaptação, e que seus direitos não custaram mais do que 1,2 Milhões!

Quem assistir esse filme, morrerá em sete dias. Ou não!

o_chamado_11 Surgimento e Evolução

O cinema asiático não era mais algo novo para o ocidente. Nos anos 60 e 70 Bruce Lee já fazia sucesso na terra dos yankees com seu estilo próprio de Kung Fu e filmes eletrizantes. Um dos atores coadjuvantes que costumavam ser surrados por Lee em cena foi o seu sucessor no gênero – Jackie Chan. Ele realmente popularizou as artes marciais nos filmes de ação ocidentais, em filmes como Police Story e Um Kickboxer Muito Louco. Okay, talvez esse segundo nem tanto, mas eu adoro ele! Aquela cena dos ventiladores gigantes ficará na minha memória para sempre!

Enfim, o que importa é que Jackie Chan não era apenas protagonista, assim como Silvester Stallone ou Clint Eastwood ele gostava de dirigir seus filmes. E isso permitiu que roteiristas, produtores e diretores asiáticos também viessem para os Stades! Com John Woo em filmes como O Assassino, A Outra Face e os mais recentes 21 e Missão Impossível 2; ou Ang Lee e seus sucessos Razão e Sensibilidade, O Tigre e o Dragão, Hulk e O Segredo de Brokeback Mountain.

Ou seja, uma vez lá, o intercâmbio cultural era inevitável. Produções que antes passavam desapercebidas pelos olhos dos grande produtores americanos agora eram valorizadas. E O que Hollywood procurava no final da década de 90? Terror! E eles acharam em 1998.

Ringu foi lançado no Japão em 1998 e foi sucesso absoluto na terra dos pedófilos de olhos puxados. Nos Stades ganhou em 2002 um remake denominado O Chamado, estrelado pela inglesa Naomi Watts, e abriu as portas para esse gênero, que tem algumas peculiaridades que serão discutidas mais à frente. Ainda na onda desse sucesso outros filmes foram adaptados, como o também best-seller O Grito, Água Negra, Olho do Medo, Espelhos do Medo e o meu predileto – Espíritos! Que ganhou o nome de Imagens do Além em sua adaptação.

Agora, o que é mais notável é que não são apenas as obras que estão sendo importadas, nem apenas os conceitos. Mas toda uma gama de profissionais! Esse fato é confirmado na produção de O Chamado 2, que foi dirigido por Hideo Nakata, o diretor do filme que originou toda essa febre.

Só que o terror asiático tem uma fórmula marcante, forte e original o suficiente para não conseguir ser imitada à altura por nenhum americano; e particular o suficiente para que eu, assistindo Espelhos do Medo achando que era apenas um terror americano comum, perceba com 15 minutos de filme que é um remake! Vamos ver o que torna esse estilo de fazer cinema único.

grudge207280601 Temática Sobrenatural

Uma das características mais marcantes do terror asiático é sua temática. Em um época, como dito anteriormente, onde dominavam filmes de assassinatos de adolescentes e de psicopatas estúpidos a terra do sol nascente trouxe algo novo, ou pelo menos resgatou um estilo abandonado nos anos 60 e 70 pelo cinema americano – só que, mesmo assim, com uma abordagem singular.

Nessa escola de terror o sobrenatural tem uma abordagem singular – as entidades têm uma manifestação física. Variando de filme para filme, e mesmo que tenha aparições curtas ou apenas no final do filme, as entidades sobrenaturais têm uma forma física visível para alguns dos personagens, ou apenas para o protagonista.

Essas entidades geralmente têm aparições rápidas, na maioria das vezes como vultos, e possuem aspecto aterrorizante – vide a clássica Samara, saindo do poço imunda e se contorcendo até chegar na vítima.

Aliás, essa é outra característica das entidades – a maioria é extremamente branca com cabelos bastante negros. Isso é algo até que bem comum no Japão, todos são assim lá, mas acaba criando um clima de tensão, um clima fantasmagórico que caiu como uma luva para o público ocidental.

Esse é o tema central do terror asiático, o sobrenatural. Como diria o filósofo, aquilo que o homem mais teme é o que não pode explicar. O que seria pior, nesse ponto de vista, do que o sobrenatural? A sensação de impotência é o pior de tudo. Se você vai morrer em sete dias depois de assistir a fita, o que diabos você pode fazer? Samara é implacável.

Quem usa muito bem esse estilo em Hollywood é o indiano M. Nigth Shyamalan, em O Sexto Sentido e Sinais. O que eu, particularmente, chamo de cinema do quase. Onde vultos passam por sua vista periférica, onde você vê apenas a perna do ET no milharal escuro, mas, no final de tudo, a entidade se manifesta em sua plenitude – levando à trama ao clímax final.

Bem como o olha e não vê, uma técnica de direção onde você olha para algo, percebe uma presença neste local, desvia o foco e quando retorna. Ops! Onde ele está? Isso enfatiza o caráter de alucinação que essas entidades têm para com os personagens da trama, e até reforça uma posição de família a amigos – a descrença.

ATAL2003_01  Início Banal

Uma característica do terror norte-americano, talvez até mesmo do suspense, é que ele utiliza bastante a figura do psicopata. Do assassino serial. Não poderia ser diferente em uma sociedade que gosta de ver corridas da Nascar apenas para ovacionar carros explodindo, ou que gosta de ver shows com carros se batendo e se destruindo e que tem como grandes figuras pops ninguém menos do que serial killers. E preferem fazer especiais com homens como Ted Budy e Ed Gein do que sobre, ahn, sei lá, o Dalai Lama? Esquece, americanos são estranhos – e esse é o ponto.

E em seus filmes de terror, na maioria dos casos, tudo se inicia com um assassinato. Seja para jogar diretamente na cara do público o objetivo do filme e sua metodologia, chocando-os à priori para que mantenham a atenção focada no que vem a seguir; seja para dar dicas aos espectadores sobre a identidade do criminoso, caso seja um filme nesse estilo. Um exemplo de filme que utiliza essa metodologia é Jogos Mortais, que sempre se inicia com algum jogo macabro.

Na Ásia as coisas funcionam diferente. Geralmente a produção se inicia com uma introdução sobre o cotidiano dos protagonistas da trama, mostrando sempre situações banais que mais tarde seriam explicitadas como decorrentes da ação sobrenatural – como uma dor no pescoço. Isso é importante também para definir alguns parâmetros da personalidade dos envolvidos.

As primeiras atividades sobrenaturais atuam nesse momento de marasmo da película, dando uma sensação para quem vê de que se trata realmente de algo banal, de que o protagonista trabalhou demais e está cansado e que não levar isso a sério pode ser realmente prudente. Só que os fatos vão se desencadeando, e ele percebe que está enganado.

2814-2008-01-20-01-01-56_800_2  Descrença dos Amigos

O início 'banal' do filme que conta com a descrença dos protagonistas logo é substituído por um momento em que este começa a aceitar o fato de que algo realmente não está comum – e isso geralmente é acompanhado de algumas poças de sangue.

Mas aí surge uma nova descrença, a de amigos, parentes e autoridades. Afinal, estamos falando de algo sobrenatural. Uma coisa é você falar que tem um cara de dois metros correndo atrás de você com uma serra elétrica, outra é dizer que tem uma garota suja, molhada e morta saindo da sua TV e correndo atrás de você. Aliás, nesse caso você não terá tempo para muita coisa, mas o que vale é a intenção.

Essa descrença de todos leva à característica que, julgo eu, ser a mais marcante desse estilo de terror.

30       A Viagem

Todo, isso mesmo o que eu disse, todo filme de terror asiático tem uma 'viagem' onde os protagonistas devem encontrar familiares da entidade que o está assombrando, vacuvar no seu passado, mexer nas suas coisas pessoais – até porque essa é outra característica marcante das entidades, quase sempre são assombrações de mortos, pessoas que um dia foram de carne e osso como nós.

Acho que asiático gosta desse tipo de coisa, digo, ir para lugares distantes e inóspitos falar com velhos sábios que não querem revelar a verdade e têm um ar arrogante e não colaboram com sua investigação.

Como exemplos você pode tomar a ida da protagonista de O Chamado à fazenda onde cresceu Samara, a visita dos protagonistas de Espíritos à família da assombração que está os atormentando, a ida do protagonista de Espelhos do Medo à casa da freira que tem relação com os fatos que geraram a sobrenaturalidade em seu local de trabalho, a ida da protagonista de Olho do Mal à antiga moradia da garota que doou córneas para ela. Acho que vocês entenderam o que eu quis dizer. (XD)

Essa 'viagem', que aqui coloco entre aspas por ter um sentido simbólico até mais importante que o efetivo da viagem física que ocorre, ocorre após a fase de descrença dos protagonistas e dos amigos e parentes. É a única solução encontrada por quem está envolvido em todo esse jogo sobrenatural para explicar e tentar solucionar o caso.

É meio que uma atitude desesperada, mas como quase sempre os protagonistas têm uma relação efetiva com a entidade sobrenatural que as atormenta então essa 'viagem' possui como significação figurada a introspecção desse protagonista. Digo, ele tem que revirar a sua vida medíocre, tem que retomar suas memórias reprimidas, reviver seu passado negro, entender porque isso está acontecendo com ele para ter a capacidade de solucionar tudo… ou não.

Mas, como assim revirar seu passado? Até que ponto os protagonistas têm relação com as entidades?

17694.11   Eventos do Passado e a Vingança

É notório que, na maioria dos casos, as entidades sobrenaturais que atormentam os protagonistas o fazem por vingança. É claro que existem as exceções filantrópicas como Olho do Mal em que tudo ocorre para que a vida de muitas pessoas seja salva, mas o comum mesmo é que a entidade queira mesmo é que o protagonista se foda bonito, das piores e mais constrangedoras maneiras possíveis.

E aí existe uma similaridade com o mais básico do terror americano – cria-se uma afinidade com a entidade, que é o vilão da história. E isso ocorre porque, na maioria dos casos, elas são assombrações de alguém vivo, e de alguém que sofreu bullying quando estava vivo, e talvez tenha morrido por causa disso, inclusive.

Em uma sociedade extremamente fechada e com uma concorrência terrível como é a asiática não é nada incomum histórias de pessoas tímidas, geralmente garotas, que são humilhados por seus amigos mas continuam andando com eles porquê… Porque não têm outra opção mesmo, só têm esses amigos.

Depois de uma vida de abusos, humilhações e torturas psicológicas que, provavelmente, foram as responsáveis por sua morte essas pessoas introvertidas finalmente criam coragem e aproveitam sua posição assustadora para se vingar dos que, em vida, o atormentavam. E os protagonistas que antes nos pareciam pessoas normais e até bem aprazíveis se revelam como os causadores de tudo isso. No grande clímax dessas histórias.

Shutter-2       O Final

Para mim, um filme só consegue ser bom se tiver uma trama muito bem elaborada, uma abordagem muito eficaz de um tema interessante e inexplorado ou um final surpreendente. E isso é uma das coisas que mais me atrai no cinema de terror asiático – diferente da grande maioria dos filmes americanos onde você já sabe o final com cinco minutos de filme, aqui você não sabe de nada até o último minuto!

E os finais costumam ser realmente muito interessantes nesse gênero, inclusive quebrando o paradigma do 'final feliz'. E lascando mesmo com a vida dos protagonistas, até mesmo porque a maioria deles são a desconstrução da ideologia do herói, eles são os causadores de toda aquela merda e nada mais justo do que pagar por isso.

Além de muitas vezes infelizes, os finais têm a característica de serem inconclusivos, deixando um vazio proposital de explicação que permite que os espectadores dêem sua própria continuidade à história e criem suas próprias teorias sobre o que pode ocorrer com os protagonistas. Ou, caso a produção tenha sucesso, uma continuação – porquê não? Japa nenhum é besta, pensa comercialmente muito bem!

Surpeendente, enigmático, inconclusivo e, mais importante, totalmente assustador! Os elementos de suspense são muito bem entrelaçados com as cenas de terror e horror físico, com eventuais momentos de gore que contribuem para o caráter assustador do estilo.

O terror asiático veio com uma fórmula bastante interessante e promete! Não perca tempo, acompanhe, vale a pena. O artigo ficou meio grandinho mas espero ter passado informações que direcionem vocês nesse sentido.

That's all, Folks!!!

2 comentários:

Bebs disse...

"mas o comum mesmo é que a entidade queira mesmo é que o protagonista se foda bonito, das piores e mais constrangedoras maneiras possíveis"

Ri demais com isso! hahahahahahaahh

Terror asiático é bom demais! E por mais que os ocidentais tentem copiar, nunca chega aos pés do original. =)

Meu favorito é "Espíritos". Caramba, nunca me surpreendi tanto com o final de um filme. O mais legal é descobrir onde estava o espírito da menina o tempo todo!!! xD

Bárbara disse...

É realmente algo diferente isso de você se "identificar" com o causador de todo o mal no terror asiático. N'O Chamado eu fiquei com muita pena da Samara. Tinha medo quando ela aparecia e tudo, mas, em momento algum, raiva do que ela fazia. O mesmo aconteceu com Espíritos. Meu primo havia me contado o filme antes de eu assistir, quando fui ver morri de medo, meus pés gelaram e tudo o mais, mas, em momento algum, senti raiva da menina lá. XD